Seja burro, mas não entregue seu certificado de burrice!

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PARANDO PRA PENSAR sobre a burrice inteligente

Falaremos sobre a burrice inteligente. Claro, por que não? Tenho certeza que vou ser mal compreendido e julgado pelas ideias, mas faz parte. A discordância também nos torna melhor, faz abrir a cabeça e pensar de outro modo, além do qual o nosso software mental está configurado.




Pois bem, certa manhã estava eu em uma entrevista de emprego fazendo a primeira etapa da seleção dos interessados à vaga. Essa primeira etapa consistia em uma prova de conhecimentos específicos para a área de emergência, uma redação e um questionário com umas viagens de Psicologia lá, talvez para entender/avaliar meus comportamentos, perfil, etc. A mulher do RH me entregou a papelada com uma caneta azul, sentei e comecei. Havia uma mulher sentada na minha diagonal à direita que eu nunca vi na vida e um homem duas cadeiras à frente dessa mulher. Enquanto eu, concentrado, fazia a minha prova, ouvia (infelizmente) a mulher se queixando que a prova tava difícil, que não tinha estudado, tentando puxar conversa com o cara da frente e também tentando obter algum lucro desse diálogo, como possíveis respostas para SUA prova. Fechei os ouvidos com os indicadores, apoiando os cotovelos na bancada, para seguir concentrado fazendo a MINHA prova. Pela visão periférica notava a garota inquieta e, por vezes, fazendo alguns movimentos estilo O Exorcista para ver se conseguia entender alguma coisa em azul da minha prova, o que pra mim não fazia diferença. Não sabia o cargo, não sabia nada dela, mas com aquela postura, ainda que copiasse a prova inteira e obtivéssemos nota igual, não era ameaça. E, pra falar a verdade, sempre pensei que a ameaça somos nós mesmos. Se eu sei que estudei, que estou preparado, não importa mais ninguém. Não importa a concorrência. A “luta” sou eu versus eu e o resto versus o resto.

Depois de algum tempo de sofrência, escuto: “tu num sabe essa daqui, não?”. Por mais que eu entendesse o desespero, até porque todos nós já passamos por isso, seja na escola, em um vestibular, em um concurso, etc., não podia fazer nada. Eu simplesmente disse que: “Não, sei não.”, com uma expressão facial e gesto de “sinto muito / boa sorte / não posso ajudar aqui e agora / e preciso fazer a minha também”. Passado mais um tempo, quando umas das mulheres do RH passa próximo da sala, essa candidata se levanta e entrega o seu certificado de burrice ao RH: “Olha, a prova tá difícil. Não estou conseguindo fazer. É que eu não estudei, sabe? A gente pode marcar outro dia?”. Nesse momento eu precisei parar a minha prova e direcionar outros órgãos do sentido para o que estava acontecendo, para saber se não era apenas uma alucinação auditiva. A recrutadora (não sei se podemos chamar assim; to tentando evitar usar o termo “a mulher do RH”) disse que tudo bem, aceitando a devolução das provas de forma simpática e compreensiva.

Destaquemos uma coisa: a ideia dessa reflexão não é dar ênfase de que não se pode desconhecer as coisas, de que não se pode ser ignorante em um determinado assunto, de que não se pode ser burro nunca, de que você tem que sempre saber das coisas. Não é isso! Jamais! Isso seria extrema presunção e arrogância. No entanto, mesmo diante de uma situação em que você seja o mais burro é preciso agir inteligentemente (não estou comparando a ninguém, refiro-me ao mais burro de você, ao mais burro que você pode ser, até porque isso é extremamente relativo; eu sou burro pra caramba em história, por exemplo, mas não sou em biologia).

E não estou falando que ser inteligente é você OMITIR, ESCONDER, MENTIR que não sabe de algo. Isso é arrogância, falta de humildade. Inteligência nesse ponto seria você reconhecer suas limitações e perceber o QUANTO ISSO PODE COMPROMETER o trajeto até o seu objetivo (no caso, alcançar a vaga pretendida) e correr atrás do prejuízo. A mulher poderia ter feito qualquer coisa, como TENTAR responder o que viesse na cabeça, deixar em branco alguma questão, qualquer coisa, menos ter entregue o Certificado de Burrice. Não é possível que ela não soubesse de absolutamente nada. Eu estou brincando com esse termo, mas isso não quer dizer que a mulher seja realmente burra. Entendam-me. Ela poderia estar com alguns problemas pessoais, sei lá. “N” fatores podem ter levado à “burrice”. No entanto, para a empresa, para o RH, ao se comparar com todos os outros candidatos, essa mulher entregou o seu Certificado de Eliminação Automática de Burrice. Esse certificado garante 100% de chance de eliminação em qualquer seleção que se faça na vida (e se existir vida após a morte, também!!!). Garanto! Podem fazer o teste.

Não sou consultor, nem recrutador, mas com um mínimo de raciocínio não é difícil concluir que ninguém quer trabalhar com um profissional que: 1) não está preparado para resolver problemas dentro de sua área/especialidade; 2) desiste de continuar no processo porque se vê incapaz ou, pior do que isso, além de se vê, mostra-se incapaz. Isso quer dizer que é um profissional descartável no mercado? Não, absolutamente não. Pode ser que o investimento nessa pessoa a torne a melhor do Estado. Mas é inegável que é um critério importante de escolha. Pode ser que o investimento seja eficaz, mas pode ser que a pessoa realmente seja uma “porta”. Então, é um critério, queiramos ou não.

Eu tenho certeza que qualquer pessoa pode, a partir desse acontecimento, dar a “volta por cima” e em outra oportunidade fazer uma prova excelente. Mas estou me referindo àquele instante, àquela empresa, àquela prova, àquela recrutadora, àquela ATITUDE. Talvez as coisas corram melhor em uma outra circunstância, mas essa oportunidade já era, o filme já foi queimado, a bala já foi gasta, e a primeira impressão ficou/marcou. Mas isso é muito radicalismo, Rafael. Sim, é. Mas não é a verdade? Antes de ser radicalismo ou não, é a verdade. Infelizmente.

Isso pode acontecer com qualquer um de nós, e tudo que acontece serve para a gente reconhecer as limitações e crescer. Isso faz parte da humildade. No entanto, não se expor dessa forma, nessa determinada circunstância não cabe como arrogância, mas proteção; pois, você pode terminar passando uma ideia de que não necessariamente é a sua essência. E em um momento como esse não seria legal deixar essa “primeira impressão”.

“A gente pode marcar outro dia?”. A recrutadora não respondeu nada; apenas compreendeu o momento. Mas eu imagino (99% de probabilidade) que a resposta na cabeça dela foi “Não, não pode. Sinto muito”. Lembra do outro texto de oportunidades? Uma oportunidade foi gasta, foi perdida. Mas o efeito dessa perda poderia ter sido amenizado. Não é porque você sujou a mão de merda que agora você vai colocar na boca, entende? Sejamos inteligentes até mesmo na burrice!

2 Comentários

  1. Eu concordo com você, mas vou tentar pensar pelo outro lado.

    Será que o RH realmente analisou o currículo da mulher para chamá-la para uma entrevista? Será que a mulher realmente estava atrás daquela vaga?
    Muitas agências não se dão nem o trabalho de ler o seu nome no currículo, vê a idade e já faz o contato para preencher cadeiras nas entrevistas.

    Concordo que a mulher tinha que tentar dar o seu melhor, e sair de lá com o pensamento de “Eu tentei”. Ela desistiu e mostrou claramente que não estáva ´preparada. =/

    Triste né?

  2. Não sei, Clayci. Mas acho que sim, visto que você entregava o currículo informando a área que pretendia ingressar. E a prova era exatamente referente a assuntos do setor que você escolheu. É triste mesmo. 🙁 Mas cabe de aprendizado. 🙂

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