Você é melhor do que quem?

Você é melhor do que quem?

Imagem: Gnvision

PARANDO PRA PENSAR sobre o risco da “super-humanidade”

Final do ano passado conheci um bombeiro militar do Estado da Bahia em um congresso que ocorreu em Salvador sobre Suporte Básico de Vida em Cardiologia. E, infelizmente, no início desse ano surgiu a notícia em rede nacional de um bombeiro militar que morreu após ser levado pela correnteza durante um resgate que tentava realizar. Era muito intrigante pensar que poucos meses antes você estava treinando Reanimação Cardiopulmonar com uma pessoa que poucos meses depois entraria para essa estatística.

E isso me voltou à cabeça um dia desses, quando passei em frente a um quartel do Corpo de Bombeiros Militar. E, mais do que refletir sobre as causas do acidente, possíveis descuidos ou não, cabe-nos refletir sobre o risco da “super-humanidade”. O fato aqui não é se o bombeiro ultrapassou os limites do que lhe era possível ou não, até porque, quando se ama o que faz, como ele demonstrava fazê-lo, os limites para salvar outra vida são mais flexíveis que o habitual. É de se entender. Mas nos cabe refletir sobre o quanto não somos nada. O quanto nos julgamos melhores e diferentes de todas as outras espécies simplesmente pelo fato de sermos sapiens. Grande bosta! O fato de ser sapiens nos permite apenas uma vida diferente, buscando melhores condições de uma forma mais lógica e planejável. No entanto, não nos torna MELHORES. E é sobre esse risco que me refiro.

Às vezes, o pensamento de que somos capazes de CONTROLAR E MANIPULAR todas as outras coisas, espécies, fenômenos da natureza, traz prepotência, autoconfiança e um sentimento de super-herói da vida. E isso pode ser perigoso, dado o risco que isso envolve. A meteorologia nunca vai ser MELHOR do que a natureza. As boias nunca vão ser MELHORES do que a correnteza. O avião NUNCA vai ser melhor do que a força da gravidade. O remédio NUNCA VAI SER MELHOR do que a morte inevitável. Existem variáveis que são sobre-humanas; e o ser humano, com sua super-humanidade, apenas se ilude de que ele é melhor e pode controlar tudo. Mas não pode. E, caso se tenha (ou ache que tenha) um mínimo de controle, isso não nos torna melhor e ABSOLUTAMENTE SUPERIORES. Não! Você não é melhor do que nada; é apenas diferente.

Bombeiros com muitos anos de profissão e experiência podem morrer no mar. Aviões com muitas horas de voo podem cair. Por que? Por que não somos superiores à natureza. O que te torna melhor que ela? O que te torna melhor que outra pessoa? O que te torna melhor que outro animal? O raciocínio e capacidade de memória? E o teu olfato, compara com o do cão. Então eles se acham melhores que nós por isso. Veja como as coisas são relativas. É muita presunção superestimar a nossa existência.

Então, até antes desse dia eu pensava o quão insano e cômico seria um nadador profissional que entrasse em um mar desconhecido com uma boia abaixo do braço (ou qualquer outro instrumento de flutuação). Seria engraçado. No entanto, conclui que isso seria uma das maiores atitudes de razão e humildade, ao reconhecer que, INEVITAVELMENTE, somos limitados. Aquela cena, a priori cômica, era, na verdade, uma lição de moral para aqueles que acreditam que pelo fato de serem “super-homens”, a natureza não engole. Cuidado!

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