31 ago 2017

Sobre o “modo-piloto-automático” do desrespeito

PARANDO PRA PENSAR sobre o “modo-piloto-automático” do desrespeito

Era uma vez um homem que estava dirigindo e parou em um semáforo. Nesse instante, uma mulher muito bonita aguardava para cruzar a faixa de pedestres. Com a confiança diretamente proporcional ao valor do bem móvel, o homem baixa seus óculos escuros para olhar melhor “o produto”, dá duas buzinadas e, para completar o flerte, profere um elogio de forma bastante carinhosa: “- Delícia!”. Na cabeça do rapaz, é claro que toda mulher gosta de ouvir e vivenciar essas coisas. Sendo assim, por que não fazê-lo? Receber buzinadas nas ruas, ser chamada de “delícia” ou “gostosa” é algo que valoriza as qualidades daquele “alvo”, pensa o rapaz. Rapidamente, a garota olha para o homem e sorri, aceitando o flerte. Ela vai em direção ao carro e entra. Os dois se cumprimentam, em meio aos 10 segundos restantes de sinal vermelho, e seguem suas vidas. E, claro, foram felizes para sempre.

Era uma vez um motociclista que buzinava para todas as mulheres as quais ele encontrava no caminho. Talvez, pensasse ele, como uma forma de homenagem à beleza feminina. Mas não bastava apenas buzinar, era também importante conferir se a parte de trás era tão agradável quanto a parte da frente. Para isso, ao estilo ” O Exorcista”, o motociclista voltava sua atenção para o exame físico posterior daquele “objeto” mirado anteriormente. Na cabeça desse rapaz, ele também pensa que toda mulher gosta de ouvir e vivenciar essas coisas. Sendo assim, por que não fazê-lo? Receber buzinadas nas ruas, ser “secada” visualmente é algo que valoriza as qualidades daquele “alvo”, pensa o rapaz. Confiante de que essa é uma estratégia autêntica, inteligente, saudável e respeitosa, ele sempre continuou fazendo. Assim, certo dia, encontrou o amor da sua vida, que subiu na garupa de sua motocicleta e seguiram a vida, sendo felizes para sempre. Mas, nesse dia, esse homem tinha apenas um capacete consigo. Como transportar mais uma pessoa, então? Esse, de fato, não era um problema. Afinal de contas, por que se preocupar em respeitar as leis do trânsito se não há respeito nem “às leis do próximo”?

Essas duas histórias podem estar contidas na semana de todos nós. No entanto, retirando a parte do final, em que tudo dá certo, em que as pessoas ficam juntas e são felizes para sempre. Isso não é a realidade! Isso não acontece! Nenhuma mulher gosta disso. E não preciso ser mulher para perceber/sentir isso. Assim como não é preciso ser negro, homossexual ou estar na condição de migrante para perceber o racismo, o preconceito, a xenofobia. É incrível como eu me deparo com isso todos os dias no trânsito. E, quando isso acontece, além de sentir vergonha (muita “vergonha alheia”) e nojo, eu fico me perguntando: “Qual o sentido de o cara fazer isso? Ele acredita mesmo que essa é uma forma bacana de atrair alguém? O que ele espera? De verdade, o que ele espera? Que a mulher ache lindo e fofo um cara escroto e desconhecido buzinando para sua bunda? Que ela olhe pro cara e solte beijinhos? É isso? Se for, tem algo errado!”.

Mas eu acho que esse é o pensamento. Só pode. E, se assim for, há muita idiotice ou muita loucura, ou os dois juntos! Porque pelo mínimo de racionalidade que você tenha, não é difícil concluir que isso é um grande desrespeito. Acho que consegui ser bastante nojento nessas duas histórias. E essa era a intenção. Mas é, infelizmente, um nojo palpável, concreto, real, diário. E, tenho certeza absoluta que 100% das mulheres que lerem isso já passaram por essa situação ou algo muito próximo disso, seja no trânsito ou fora dele.

Mas, calma, eu não estou falando que ninguém pode mais se olhar. Claro que não. São duas coisas totalmente diferentes. É natural que um homem bonito chame a atenção de uma mulher e que uma mulher bonita chame a atenção de um homem. Aliás, é natural que uma pessoa possa chamar a atenção (generalizando toda classificação de gênero), seja pelo sorriso, pelo cabelo, pela simpatia e, claro, também pelo corpo e pela roupa que esteja usando. Mas, calma, eu falei em “corpo e roupa que esteja usando”, mas apenas queria destacar que isso não é convite para estupro ou comentários indelicados. Retomando, é claro que uma mulher bonita me chama a atenção. Isso é inegável. Mas isso não quer dizer que eu precise tocar no corpo dela, que eu precise chamar de “gostosa”, que eu precise ser infiel, que eu precise ficar “secando”, buzinando, e, finalmente, DESRESPEITANDO E INVADINDO SEU ESPAÇO. São coisas totalmente diferentes. E, pra isso, não é preciso que se seja padre ou homossexual, como costumam argumentar. Assim como uma mulher também pode olhar e admirar um homem que passa em seu caminho, sem necessariamente invadir o seu espaço. Isso é natural e direito de qualquer um. No entanto, invadir o espaço do outro é ultrapassar o seu direito e entrar no direito do outro. ESSE É O REAL PROBLEMA.

“- Porra, todas as mulheres que passam aqui na frente esse cara tira onda! Esse bicho é macho mermo!”. É assustador como as pessoas reproduzem esse comportamento e esse desrespeito, no piloto automático mesmo, de forma inconsequente, sem ter consciência de que isso ultrapassa os limites das relações humanas, julgando isso NORMAL e COMUM. Esse é o perigo. Será que a masculinidade ou a virilidade é medida através de quantos assédios você pratica por dia? É óbvio que a resposta é não, mas a ideia desse texto é trazer um desabafo e uma oportunidade para sempre pararmos pra pensar sobre isso.

Forte abraço!

Rafael Urquisa Postado por Tags:
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