25 jan 2018

O que é mais importante: o esforço ou o talento?


Daniel Dias, o maior medalhista brasileiro em Jogos Paralímpicos. (Foto: Buda Mendes / CPB)

PARANDO PRA PENSAR sobre o quanto o esforço sobrepõe o talento

Próxima semana estarei retornando à prática da natação, algo que parei há aproximadamente uns 6 meses atrás. A natação era algo que sempre imaginei que fosse morrer e jamais praticaria, acima de tudo pelo meu desconforto em ambientes aquáticos. Apesar de sobreviver tranquilamente na água enquanto os pés não tocavam o chão, nunca me senti confortável, seja porque durante a infância sempre me puseram medo, seja por sustos que tomei, seja porque nunca tive o controle da respiração dentro d’água, ou simplesmente porque nunca fui bem apresentado a esse contexto, nunca fui bem adaptado a ele, enfim, inúmeras variáveis.

Naquela época (há aproximadamente 6 meses) passei por um trabalho muito duro comigo mesmo, primeiro de adaptação à água, uma vez que essa atividade era algo novo pra mim, e segundo pela adaptação cardiorrespiratória e muscular que eu precisava adquirir o mais rápido possível, uma vez que estava treinando para um Teste de Aptidão Física (TAF) para aprovação em concurso público.

No primeiro dia da natação, eu tinha a certeza de que não apenas seria a aquisição de uma nova técnica, mas uma transformação. Primeiramente, de que eu estaria ultrapassando uma limitação minha, aprendendo algo novo, aumentando meu repertório e, mais do que isso, impondo ao meu próprio corpo novos limites, dizendo para ele: “Olha, agora você vai ter que ser capaz de fazer isso, isso e isso. Problema seu! Te vira!”. E a partir daí eu fui trabalhando os fundamentos, juntamente com o professor e colegas da turma mais experientes. Eu ouvia atentamente as orientações do professor e observava os colegas nadando como uma caça observa sua presa, como se nada mais houvesse em sua visão periférica.

Engraçado como na prática da natação, ou de qualquer outro esporte, ou de qualquer outra coisa na vida, a gente pode ver uma associação. O meu problema, a priori, era trabalhar a respiração dentro da água, de modo que você faça a submersão de forma confortável, sem entrar água no nariz, sem afobação, emergindo em seguida, inspirando e voltando à submersão. No começo, algo que parece extremamente simples, era bem difícil pra mim.

E como nadar na técnica correta sem nem ainda ter o controle da respiração? É possível? Claro que não. Mas nós, talvez por vaidade, às vezes trocamos a ordem do processo. Era mais importante chegar do outro lado da borda no menor tempo possível do que me preocupar com a frequência e técnica de respiração lateral somada aos movimentos de braçadas e pernadas. Tudo bem, eu chegava do outro lado da borda, mas morto, porque não respirei adequadamente, porque fiz esforço demais por não utilizar a técnica aprimorada, e assim continuei por alguns dias de treino.

Até que, depois de algumas aulas, eu refleti sobre o que era mais importante: a técnica e a resistência ou apenas a velocidade (o chegar do outro lado da borda)? E, pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui? Tá tudo errado!” Engraçado que logo após esse pensamento, eu me deparo com a frase de Paulo Coelho: “Mude. Mas com calma, porque a meta é mais importante que a velocidade”. Perfeito! É exatamente isso. E podemos levar isso para a vida. Uma criança não passa do colo para a corrida. Ela começa engatinhando, levanta se segurando nos móveis, depois dá passos curtos e cai, depois dá passos longos e cai, depois não precisa se segurar mais. E só depois de algum tempo é que ela corre. Essa é a ideia do PROCESSO, o qual eu estava sabotando.

Assimilado isso, comecei a mudar minha postura dentro da piscina e comecei a perceber melhora exponencial nos treinos. E, como compromisso de vida, não o de fazer perfeito, mas o de procurar masterizar tudo que é possível, eu continuava observando atentamente outras pessoas mais experientes nadando, e não tinha vergonha de perguntar coisas bobas ao colega de treino do lado. Às vezes as pessoas têm vergonha de mostrar que não sabem de algo, ficando com receio de perguntar. Dane-se. Se o cara que eu perguntei alguma coisa pensou que eu era um idiota por não saber nadar perfeitamente mesmo depois de “velho”, o problema é dele. Esse pensamento dele não mudou em nada minha vida. O que mudaria seria o fato de eu não perguntar, porque dessa forma eu nunca cresceria. Além disso, observava vídeos e imagens da técnica na internet.

Mas, tendo consciência de que eu ainda precisava melhorar MUITO, pesquisei pela internet e encontrei um capítulo de livro muito interessante que falava da biomecânica da natação, envolvendo posturas corretas e incorretas que aumentam ou diminuem o atrito na água, além de correlacionar as leis de Newton com o desempenho do nado. Perfeito! E era exatamente isso que estava bloqueando o meu progresso, essas posturas inadequadas que comprometiam o meu deslocamento na água.

Nessa época eu tive um mês para treinar o nado. O objetivo era cumprir 50 metros em 1 minuto. No dia da prova, fiz essa distância em 58 segundos. Quase! Mas lembram de Paulo Coelho, de que a meta é mais importante que a velocidade? E é com esse pensamento que eu retorno aos treinos para uma nova prova física em junho. O importante não é apenas a velocidade na qual você cumpre o objetivo. A velocidade deve ser consequência do quanto você QUALIFICA o processo. Se você investe no processo (período que está entre o início e o fim), você obviamente ganha velocidade. E era nisso que eu precisava investir e estava sabotando no início dos treinos naquela época.

Esse é apenas um exemplo do quanto o esforço pode se sobrepor ao talento. É claro que uma pessoa que é TALENTOSA e que É ESFORÇADA estará entre os melhores. No entanto, uma pessoa que é APENAS TALENTOSA e não é esforçada, pode facilmente ficar pra trás quando comparada àquele que é ESFORÇADO mas não tem talento nenhum. Nunca serei um excelente nadador, e esse também não será meu objetivo. No entanto, a falta de talento pode ser compensada pelo esforço, pelo trabalho duro, pela resiliência, não só na natação mas em qualquer outro contexto da vida.

Abraço!

Rafael Urquisa Postado por
1 Comentário

1 Comentário em "O que é mais importante: o esforço ou o talento?"

  1. Anderson disse:

    Nossa adorei este artigo muito interessante, sempre quando tenho um tem-pinho visito este blog.
    Parabéns belo blog.

    https://www.noticiasdaweb.com.br/super-cap/